O PIB argentino cresceu 4,4% em 2025, a primeira expansão significativa em quatro anos. Para um país que patinava entre recessões e estagnação desde 2018, o número parece promissor. Mas será que o libertário Javier Milei realmente conseguiu colocar a economia argentina nos trilhos, ou estamos diante apenas de um rebote estatístico após um tombo histórico?
O crescimento vem depois de uma recessão de 1,6% em 2024 e quedas consecutivas nos anos anteriores. É o que economistas chamam de "efeito base": quando se parte de um ponto muito baixo, qualquer recuperação parece espetacular. É como comemorar que voltou a andar depois de quebrar a perna — necessário, mas não é hora de correr uma maratona.
O Receituário Liberal de Milei
Desde que assumiu a presidência em dezembro de 2023, Milei implementou um programa de ajuste fiscal radical que lembra os anos 1990. O governo cortou subsídios energéticos, eliminou controles de preços e reduziu o funcionalismo público. A grande aposta foi a dolarização informal: embora o peso argentino continue existindo no papel, o dólar americano virou a moeda de referência para contratos maiores e poupança.
Segundo dados do Ministério da Economia argentino, o déficit fiscal caiu de 5,2% do PIB em 2023 para 2,1% em 2024. A inflação, que chegou a 211% ao ano em dezembro de 2023, desacelerou para 78% em dezembro de 2024 — ainda altíssima, mas numa trajetória descendente. O Banco Central conseguiu acumular US$ 8 bilhões em reservas líquidas, saindo do terreno negativo pela primeira vez desde 2019.
As reformas trabalhistas facilitaram demissões e reduziram encargos, o que ajudou a reativar setores como agronegócios e mineração. A exportação de grãos e carne bovina cresceu 12% em 2024, beneficiada também pela desvalorização do peso. O setor de serviços, duramente atingido nos anos anteriores, mostrou sinais de recuperação no segundo semestre.
Comparação com o Brasil
Enquanto a Argentina comemorava seu crescimento de 4,4%, o Brasil fechou 2024 com uma expansão de 2,8% — sólida, mas menos espetacular. A diferença é que a economia brasileira parte de uma base muito mais estável. Nossa inflação terminou 2024 em 4,6%, nossa moeda é conversível e nossas reservas internacionais superam US$ 350 bilhões.
O contraste é ainda mais evidente no mercado de trabalho. O desemprego brasileiro fechou 2024 em 6,2%, enquanto na Argentina subiu para 11,4%. A pobreza argentina atinge 52% da população, segundo dados oficiais — no Brasil, considerando critérios similares, o índice fica em torno de 28%.
A grande questão é se o modelo Milei pode gerar crescimento sustentável sem aprofundar a desigualdade social. O Brasil dos anos 1990 enfrentou dilema parecido: estabilizou a moeda com o Plano Real, mas amargou crescimento baixo e desemprego alto por quase uma década.
Os Desafios que Persistem
Por trás dos números otimistas, problemas estruturais continuam latentes. A inflação de 78% ao ano, mesmo em queda, corrói o poder de compra da população. O peso argentino perdeu 40% do valor frente ao dólar em 2024, encarecendo produtos importados básicos como combustíveis e medicamentos.
O sistema previdenciário argentino passa por uma reforma que congelou benefícios em termos reais. Aposentados protestaram nas ruas de Buenos Aires ao longo de 2024, e a tensão social pode se intensificar se o crescimento econômico não se traduzir em melhoria de vida para a população.
Outro ponto crítico são as reservas do Banco Central. Embora tenham saído do vermelho, US$ 8 bilhões é pouco para um país com US$ 650 bilhões de PIB. Para efeito de comparação, o Brasil mantém reservas equivalentes a 18% do PIB; a Argentina está em apenas 1,2%. Uma crise externa poderia rapidamente reverter os ganhos obtidos.
O próprio Milei reconhece que 2025 será o ano-teste. "Fizemos a cirurgia, agora o paciente precisa se recuperar totalmente", declarou em entrevista no final de 2024. A questão é se a população argentina terá paciência para esperar os frutos de um ajuste que, por enquanto, trouxe mais sacrifícios que benefícios.
O Modelo é Sustentável?
A experiência internacional mostra que ajustes fiscais severos podem gerar crescimento no curto prazo, especialmente quando combinados com desvalorização cambial. Foi o que aconteceu na Turquia após 2001 e na própria Argentina depois da crise de 2001-2002. O problema é manter a expansão quando o "efeito rebote" se esgota.
Economistas do FMI elogiam a disciplina fiscal argentina, mas alertam para riscos sociais e políticos. O crescimento de 4,4% está concentrado em setores exportadores e urbanos de alta renda. Províncias do interior, dependentes de transferências federais cortadas por Milei, registraram retração econômica.
As eleições legislativas de meio de mandato, previstas para 2025, serão um termômetro importante. Se o partido de Milei perder votos, pode ter dificuldade para aprovar reformas adicionais no Congresso. A governabilidade, já complicada devido ao perfil confrontativo do presidente, poderia se deteriorar ainda mais.
A Argentina realmente se recuperou da crise econômica?
Parcialmente. O crescimento de 4,4% é positivo, mas vem após anos de recessão. A inflação caiu, mas continua em patamar inaceitável. A pobreza permanece em níveis críticos e o desemprego subiu. É mais correto dizer que a Argentina começou um processo de estabilização, não que superou a crise.
O modelo de Milei pode ser aplicado em outros países da América Latina?
Dificilmente. O programa argentino só foi possível devido ao esgotamento total do modelo anterior e ao apoio de uma população disposta a aceitar sacrifícios imediatos. Países com economias mais estáveis, como Brasil e Chile, não enfrentam pressões que justifiquem medidas tão drásticas.
Qual o impacto para o Brasil da recuperação argentina?
Positivo, mas limitado. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil na América Latina. Sua estabilização pode aumentar o comércio bilateral e reduzir fluxos migratórios. Porém, enquanto a inflação e a instabilidade cambial persistirem, o impacto será modesto.