O termômetro dos mercados brasileiros registrou febre alta nesta quinta-feira: o dólar rompeu a barreira dos R$ 5,30, subindo 1,8% no dia, enquanto o Ibovespa despencou 2,3%, acumulando a quarta semana consecutiva de perdas. A combinação explosiva de tensões geopolíticas no Oriente Médio, mudanças no comando da Fazenda e fuga global para ativos seguros criou uma tempestade perfeita que voltou a assombrar investidores.

A escalada do conflito na região entre Israel e grupos armados palestinos, com novos ataques reportados pela CNN e BBC nas últimas 48 horas, funciona como catalisador de uma aversão ao risco que já vinha se formando. Quando a incerteza geopolítica se intensifica, o mundo financeiro segue um roteiro conhecido: vende ações de países emergentes, compra dólar americano e ouro.

O Dólar Como Porto Seguro Global

A moeda americana se beneficia diretamente deste movimento. Segundo dados do Banco Central, o real perdeu 4,2% frente ao dólar apenas nesta semana, refletindo uma pressão que vai muito além das fronteiras brasileiras. O peso mexicano recuou 3,1% no mesmo período, enquanto o rand sul-africano despencou 3,8%, conforme levantamento da Reuters.

Esta dinâmica não é nova para o Brasil. Durante a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, o dólar saltou de R$ 5,10 para R$ 5,45 em apenas cinco dias úteis. Na crise do COVID-19, entre fevereiro e março de 2020, a moeda disparou de R$ 4,30 para o pico histórico de R$ 5,90. O padrão se repete: crises globais empurram investidores para longe de ativos de risco, categoria na qual o Brasil invariavelmente se enquadra.

A diferença desta vez está no timing doméstico. A recente troca no Ministério da Fazenda, com a saída de Fernando Haddad e a entrada de Simone Tebet, gerou questionamentos sobre a continuidade da política fiscal. Embora Tebet tenha experiência sólida e credibilidade no mercado, qualquer mudança no comando econômico em momento de turbulência externa amplifica a volatilidade.

Ibovespa Reflete Dupla Pressão

O índice da B3 sente o golpe duplo. Primeiro, a desvalorização do real torna os ativos brasileiros menos atraentes para estrangeiros, que representam cerca de 40% do volume negociado na bolsa, segundo dados da B3. Segundo, setores sensíveis ao câmbio, como varejo e serviços, perdem força com a perspectiva de pressão inflacionária.

As ações da Lojas Renner caíram 4,1% nesta sessão, enquanto a Magazine Luiza recuou 3,8%. No setor financeiro, Itaú e Bradesco perderam 2,7% e 3,2%, respectivamente, refletindo preocupações com inadimplência em cenário de real fraco e juros potencialmente mais altos.

Por outro lado, empresas exportadoras esboçam resistência. A Vale subiu 0,8%, beneficiada pela desvalorização cambial que torna seus produtos mais competitivos no mercado internacional. A JBS avançou 1,2%, seguindo a mesma lógica para o setor de proteína animal.

Contexto Histórico e Padrões

Análises históricas mostram que o real tende a se desvalorizar entre 8% e 15% durante crises geopolíticas agudas, mas também apresenta capacidade de recuperação quando os conflitos arrefecem. Na Guerra do Golfo de 1991, embora o Brasil vivesse cenário econômico completamente diferente, a moeda local perdeu 12% em seis semanas, mas recuperou metade das perdas nos dois meses seguintes ao cessar-fogo.

O atual patamar de R$ 5,30 ainda está distante dos piores momentos da história recente. O pico de R$ 5,90 durante a pandemia e os R$ 4,20 no auge da crise de 2015-2016 servem como referências dos extremos que a moeda pode alcançar em cenários de estresse severo.

Especialistas do mercado financeiro, ouvidos pelo Valor Econômico, estimam que o dólar pode testar R$ 5,40 a R$ 5,50 caso o conflito no Oriente Médio se intensifique. Por outro lado, uma desescalada rápida poderia trazer a cotação de volta ao patamar de R$ 5,15 a R$ 5,20 em questão de semanas.

Inflação Volta ao Radar

A alta do dólar reacende preocupações inflacionárias que pareciam controladas. Com o IPCA acumulado em 12 meses rodando em 4,1% até fevereiro, segundo o IBGE, uma desvalorização sustentada do real pode pressionar produtos importados e combustíveis.

A Petrobras, que segue paridade internacional para derivados, já sinalizou possíveis reajustes caso o dólar se mantenha acima de R$ 5,25 por período prolongado. O impacto se espalha rapidamente: dos combustíveis para o transporte, do transporte para alimentos, criando um ciclo que o Banco Central monitora de perto.

A próxima reunião do Copom, marcada para abril, ganha relevância adicional. Embora a Selic esteja em 10,75%, patamar considerado restritivo, uma piora significativa no cenário cambial pode forçar nova alta dos juros, interrompendo o ciclo de flexibilização iniciado no final de 2025.

O Que Observar nos Próximos Dias

O mercado brasileiro ficará atento a três fatores principais nas próximas semanas. Primeiro, a evolução do conflito no Oriente Médio e possíveis mediações internacionais que possam amenizar as tensões. Segundo, os primeiros sinais da gestão de Simone Tebet na Fazenda, especialmente declarações sobre política fiscal e metas de resultado primário.

Terceiro elemento crucial será o comportamento dos juros americanos. O Federal Reserve mantém o fed funds rate em 5,25%, mas sinais de que pode precisar manter os juros altos por mais tempo tendem a fortalecer ainda mais o dólar globalmente, aumentando a pressão sobre moedas emergentes.

Investidores devem ficar atentos também aos dados de fluxo de capital estrangeiro, divulgados semanalmente pelo Banco Central. Uma sequência de saídas líquidas superiores a US$ 1 bilhão por semana indicaria intensificação da fuga de recursos, cenário que demandaria resposta mais firme das autoridades monetárias.

O dólar pode voltar ao patamar de R$ 5,90 da pandemia?

É possível, mas exigiria uma combinação de fatores extremos: escalada militar significativa no Oriente Médio, deterioração aguda das contas públicas brasileiras e mudança brusca na política monetária americana. O cenário base dos analistas aponta para estabilização entre R$ 5,20 e R$ 5,40.

Por que o Ibovespa cai mais que outras bolsas emergentes?

O Brasil tem peso significativo nos índices globais de emergentes, tornando-se alvo preferencial quando investidores precisam reduzir posições rapidamente. Além disso, nossa bolsa tem maior concentração em setores sensíveis ao câmbio, como bancos e varejo, que sofrem mais com a desvalorização da moeda.

A troca de ministro na Fazenda influencia o câmbio?

Mudanças no comando econômico sempre geram incerteza inicial, especialmente em momentos de volatilidade externa. Simone Tebet tem credibilidade técnica, mas o mercado aguarda sinais claros sobre continuidade das políticas fiscais e compromisso com as metas de resultado primário estabelecidas.