Libertadores 2026: As Maratonas de Quase 10 Mil Km Que os Clubes Brasileiros Enfrentam
Clubes brasileiros encaram viagens de quase 10 mil km na fase de grupos da Libertadores 2026, criando desafios únicos de logística e desempenho.
Por Elio Picchiotti
Quando o Flamengo embarcou para Quito no último mês para enfrentar a LDU, os jogadores não apenas cruzaram fronteiras — percorreram 3.240 quilômetros em uma única viagem. Para ter uma noção da distância, é como ir de São Paulo a Belém. E isso foi apenas o primeiro de seis voos internacionais que o time rubro-negro fará na fase de grupos da Libertadores 2026.
A geografia sul-americana transformou a principal competição continental em uma verdadeira maratona aérea para os clubes brasileiros. Segundo levantamento do portal Transfermarkt, equipes do país percorrem em média 8.700 quilômetros durante a fase de grupos — quase a distância entre Rio de Janeiro e Tóquio. O número representa praticamente o dobro do que times europeus enfrentam na Champions League, onde a maior distância possível raramente ultrapassa os 4.500 km.
O Mapa da Exaustão
Os dados da atual edição revelam um cenário desafiador. O Palmeiras, sorteado no Grupo A ao lado de The Strongest (Bolívia), Deportes Tolima (Colômbia) e Barcelona de Guayaquil (Equador), acumula 9.420 km apenas nas viagens de ida. A situação se complica quando consideramos que La Paz fica a 3.600 metros de altitude — um fator que, segundo estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reduz em até 12% a capacidade aeróbica dos atletas nas primeiras 48 horas.
O Botafogo, no Grupo C, enfrenta desafio similar com viagens para Montevidéu (1.200 km), Lima (3.100 km) e Caracas (4.200 km). O time alvinegro acumula 8.500 km em deslocamentos, sem contar os voos de volta. "É um desgaste que não existe em nenhuma outra competição do mundo", afirmou o preparador físico Paulo Paixão em entrevista ao ge.com na semana passada.
A situação contrasta drasticamente com a realidade europeia. Na Champions League 2025/26, o Manchester City percorreu apenas 4.200 km em toda a fase de grupos — menos da metade do que clubes brasileiros enfrentam. A distância entre Londres e Istambul, considerada longa pelos padrões europeus, equivale a um voo nacional no Brasil, como São Paulo-Manaus.
O Preço da Continentalidade
O impacto financeiro dessas maratonas aéreas é substancial. Cada fretamento internacional custa entre R$ 800 mil e R$ 1,2 milhão, dependendo do destino e da aeronave. O Fluminense, que disputou a Libertadores 2024, gastou R$ 4,8 milhões apenas em deslocamentos durante a fase de grupos, segundo balanço divulgado pelo clube.
Os custos se multiplicam além das passagens. Clubes precisam ampliar seus elencos para lidar com a rotação necessária, contratar equipes médicas especializadas em medicina aeroespacial e investir em centros de treinamento que simulem diferentes altitudes. O Santos, por exemplo, instalou uma câmara hipóxica em seu CT no valor de R$ 2,5 milhões para preparar jogadores para jogos em altitude.
A logística também exige planejamento militar. O Grêmio chegou a enviar uma comitiva de reconhecimento para La Paz três semanas antes da partida contra o Bolívar, mapeando desde a qualidade do gramado até os melhores hotéis para aclimatação. "Não é só chegar e jogar. É quase uma expedição", explicou o diretor de futebol Denis Abrahão em coletiva de imprensa.
Calendário Estrangulado
A situação se agrava quando analisamos o calendário brasileiro. Enquanto times europeus têm uma pausa de inverno e jogam prioritariamente aos fins de semana, clubes brasileiros enfrentam um cronograma que beira o impossível. Entre março e dezembro de 2026, grandes equipes disputarão simultaneamente Libertadores, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e estaduais.
O Palmeiras, por exemplo, jogará 72 partidas oficiais em 2026 — uma a cada 5,1 dias. Considerando as viagens internacionais, alguns jogadores passarão mais tempo em aviões e hotéis do que em suas casas. "O calendário brasileiro é desumano. Você adiciona essas distâncias e vira um teste de resistência", criticou o técnico Abel Ferreira em entrevista recente.
Estudos da Confederação Brasileira de Futebol mostram que jogadores brasileiros percorrem 35% mais quilômetros por temporada que seus pares europeus. A diferença se reflete nas lesões: clubes brasileiros registram 18% mais contusões musculares que times da Premier League, segundo dados do laboratório de performance Football Medicine.
A Champions Como Referência
A comparação com a Europa é inevitável e desfavorável. Na Champions League, a maior distância possível é entre Sporting (Portugal) e Shakhtar Donetsk (Ucrânia): 2.800 km. No Brasil, ir de Porto Alegre a Caracas — trajeto comum na Libertadores — soma 4.200 km. É como se times portugueses tivessem que jogar regularmente em Moscou.
A UEFA ainda oferece voos fretados subsidiados e permite que clubes joguem com até 48 horas de intervalo entre partidas. A Conmebol exige apenas 72 horas, mas sem considerar o tempo de deslocamento. "A logística europeia é de primeiro mundo. Aqui, é sobrevivência", comparou o consultor em futebol Juca Kfouri.
Além disso, times europeus contam com infraestrutura superior. Aeroportos próximos aos estádios, hotéis especializados em atletas e até mesmo serviços médicos padronizados. Na América do Sul, clubes precisam se adaptar a realidades díspares: desde La Paz, onde hotéis têm sistemas de oxigenação, até Barranquilla, onde a umidade de 90% exige protocolos especiais de hidratação.
Cenários Futuros e Possíveis Soluções
A Conmebol estuda mudanças estruturais para a Libertadores 2028. Uma das propostas em análise é a criação de grupos regionais na fase inicial, reduzindo viagens longas até as semifinais. O modelo funcionaria como uma pré-Libertadores, similar ao que a AFC Champions League adotou na Ásia.
Outra possibilidade é o aumento do prazo entre jogos para 96 horas, permitindo melhor recuperação. A entidade também avalia parcerias com companhias aéreas para reduzir custos de fretamento — atualmente, clubes pagam até 300% mais que voos comerciais por questões de segurança e cronograma.
O exemplo da NBA americana pode inspirar soluções. A liga de basquete criou regras específicas para viagens: times não podem jogar com menos de 24 horas após voos transcontinentais e recebem compensação financeira por deslocamentos extremos. Na Libertadores, essas medidas poderiam equilibrar a competição.
A tecnologia também oferece alternativas. Simuladores de altitude já são realidade em clubes europeus e poderiam ser padronizados na América do Sul. Centros de treinamento regionais, financiados pela Conmebol, permitiriam que times se preparem localmente antes de jogos em condições extremas.
O calendário brasileiro também precisa de reforma. A CBF discute a criação de "janelas Libertadores" — períodos onde o Brasileirão para completamente para acomodar as fases eliminatórias. O modelo existe na Argentina e reduziu significativamente as lesões por sobrecarga.
Por que as distâncias na Libertadores são tão maiores que na Champions League?
A América do Sul tem dimensões continentais com centros urbanos muito espaçados. A distância entre Belém e Porto Alegre (2.100 km) é maior que Londres-Roma. Além disso, a infraestrutura aeroportuária é menos desenvolvida, forçando escalas que aumentam ainda mais os deslocamentos.
Quanto um clube brasileiro gasta com viagens na Libertadores?
Entre R$ 6 milhões e R$ 10 milhões por temporada, incluindo fretamentos, hospedagem, alimentação e equipe de apoio. Clubes menores podem comprometer até 15% de sua receita anual apenas com logística da competição.
A altitude realmente afeta o desempenho dos jogadores?
Sim. Estudos comprovam que a partir de 2.500 metros, a capacidade aeróbica diminui entre 8% e 15%. Em La Paz (3.600m), jogadores brasileiros registram frequência cardíaca 20% maior que ao nível do mar nos primeiros dias de aclimatação.