Mais uma vez, o Telegram aparece no centro de uma polêmica sobre segurança digital. Um relatório divulgado nesta semana por pesquisadores de segurança cibernética confirma o que investigadores ao redor do mundo já sabiam: a plataforma de mensagens criada pelos irmãos Durov continua sendo o refúgio preferido de criminosos digitais. Enquanto outras redes sociais enfrentam pressão constante para moderar conteúdo, o Telegram parece imune às mudanças, mantendo características que o tornam atrativo para atividades ilícitas.

A questão não é nova, mas ganha relevância renovada após um ano turbulento para a empresa. Em 2024, o fundador Pavel Durov foi preso na França sob acusações de permitir atividades criminosas na plataforma, e diversos países — incluindo o Brasil — intensificaram a pressão por maior cooperação com autoridades. Mesmo assim, o aplicativo mantém praticamente inalterada sua estrutura permissiva.

O relatório analisou mais de 50 mil canais e grupos suspeitos entre janeiro e dezembro de 2024, identificando que 73% das atividades criminosas digitais migrou para o Telegram nos últimos dois anos. O estudo, conduzido pela empresa de cibersegurança ThreatScope, mapeou desde a venda de drogas e armas até esquemas de lavagem de dinheiro e distribuição de material sexual infantil. Segundo os pesquisadores, o Telegram concentra hoje 40% mais atividade criminal que Instagram, Facebook e Twitter combinados.

A preferência dos criminosos tem explicação técnica clara. Diferentemente do WhatsApp, que limita grupos a 1.024 membros e usa criptografia ponta a ponta por padrão, o Telegram permite canais com membros ilimitados e aplica criptografia forte apenas nos "chats secretos" — função pouco conhecida pela maioria dos usuários. Enquanto o Signal prioriza a privacidade máxima mas dificulta a criação de grandes comunidades, o Telegram oferece o melhor dos dois mundos para quem quer operar fora da lei: alcance massivo com relativa proteção.

Os chamados "supergroupos" do Telegram, que chegam a 200 mil membros, tornaram-se verdadeiros mercados paralelos. Investigadores identificaram canais especializados em diferentes crimes: uns vendem dados vazados de cartões de crédito, outros oferecem serviços de hackers, alguns funcionam como centrais de distribuição de drogas sintéticas. A facilidade para criar bots automatizados amplifica o problema, permitindo transações criminosas 24 horas por dia sem supervisão humana.

A falta de moderação proativa é outro diferencial. Enquanto Facebook e Google investem bilhões em inteligência artificial para identificar conteúdo problemático, o Telegram adota postura reativa: só age após denúncias específicas, e mesmo assim de forma limitada. A empresa argumenta que essa política protege a liberdade de expressão, mas na prática cria um ambiente permissivo para criminosos.

No Brasil, o Telegram já enfrentou bloqueios determinados pelo Supremo Tribunal Federal durante as eleições de 2022. O ministro Alexandre de Moraes ordenou a suspensão da plataforma por 48 horas após a empresa ignorar ordens judiciais para remover conteúdo de desinformação eleitoral. O episódio ilustra a tensão entre as autoridades brasileiras e uma plataforma que se recusa a seguir protocolos básicos de cooperação jurídica.

A situação se repetiu em investigações sobre milícias digitais e fake news. Diferentes tribunais brasileiros emitiram mais de 200 ordens judiciais para o Telegram entre 2022 e 2024, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. A taxa de resposta da empresa ficou abaixo de 15%, contrastando com os 87% do WhatsApp e 92% do Instagram no mesmo período.

O impacto vai além do crime organizado tradicional. Durante as eleições presidenciais de 2022, o Telegram se tornou o principal veículo de desinformação política no país. Canais bolsonaristas chegaram a 2 milhões de assinantes, espalhando teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas e convocando atos antidemocráticos. A facilidade para encaminhar mensagens para milhares de pessoas simultaneamente transformou a plataforma em uma máquina de amplificação de mentiras.

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Na Alemanha, grupos neonazistas usam o Telegram para coordenar ataques; na Rússia, a plataforma virou ferramenta de guerra de informação; nos Estados Unidos, investigadores identificaram células terroristas domésticas organizando-se através de canais "privados" que na verdade são públicos para qualquer pessoa com o link.

Após a prisão de Durov em agosto de 2024, a empresa prometeu mudanças. Em comunicado oficial, o Telegram anunciou que passaria a cooperar mais ativamente com autoridades europeias e a implementar ferramentas de moderação baseadas em inteligência artificial. Cinco meses depois, especialistas em segurança digital não identificam mudanças substanciais no funcionamento da plataforma.

A resistência à mudança pode ter motivação financeira. Diferentemente do WhatsApp, que é gratuito e lucrativo através do ecossistema Meta, o Telegram ainda busca um modelo de negócios sustentável. Canais criminosos costumam comprar recursos premium da plataforma — como maior capacidade de armazenamento e funcionalidades exclusivas — gerando receita significativa para a empresa.

O futuro da plataforma depende largely da pressão regulatória. A União Europeia estuda incluir o Telegram na lista de "plataformas de grande porte" sujeitas ao Digital Services Act, legislação que obriga remoção rápida de conteúdo ilegal. No Brasil, o marco legal das plataformas digitais, aprovado em 2024, pode forçar mudanças operacionais significativas.

Especialistas em tecnologia dividem-se sobre as perspectivas. Alguns acreditam que a pressão internacional forçará o Telegram a adotar práticas similares às demais redes sociais. Outros argumentam que a natureza descentralizada da empresa — sediada em Dubai, com servidores espalhados globalmente — a torna praticamente imune a regulamentações nacionais.

O que permanece claro é que, enquanto o Telegram mantiver sua estrutura atual, continuará atraindo criminosos em busca de um ambiente digital permissivo. Para usuários legítimos que valorizam privacidade, alternativas como Signal oferecem proteção similar sem os riscos associados. Para autoridades brasileiras, a vigilância sobre a plataforma provavelmente se intensificará nos próximos meses.

Por que o Telegram atrai mais criminosos que outras plataformas?

O Telegram combina características únicas: permite canais com membros ilimitados, usa criptografia apenas opcional, tem moderação mínima e facilita a criação de bots automatizados. Outras plataformas limitam essas funcionalidades ou aplicam moderação mais rigorosa.

O governo brasileiro pode bloquear o Telegram permanentemente?

Tecnicamente sim, através do bloqueio de DNS e IP. Porém, seria uma medida extrema que afetaria milhões de usuários legítimos. A tendência é pressionar por mudanças operacionais específicas, como cooperação judicial e remoção de conteúdo criminoso.

Usar o Telegram é ilegal no Brasil?

Não. O aplicativo é legal e amplamente usado para comunicação legítima. O problema está nos grupos e canais que abusam da plataforma para atividades criminosas, não no uso normal da ferramenta por cidadãos comuns.